Wednesday, July 15, 2015

Corretora

O gerente da imobiliária instrui os corretores:

-       Pra mulher é mais fácil. Porteiro gosta de mulher. É só fazer amizade, jogar um sorrisinho... Consegue a chave do apartamento, mole.

-       Mas – interrompe uma jovem corretora -  e se forem, tipo, duas mulheres?

-       O que que tem?

-       Qual ele escolhe? – ela quer saber.

-       Não tem diferença – o gerente diz, com descaso - Só ser mulher.

-       Mas – ela insiste -  e se for, tipo, eu e uma loirona, alta, magra?

Silêncio. Ela vira para um dos colegas:

-       Se você fosse o porteiro e chegasse eu e uma loirona alta, magra. Pra quem você dava a chave?

O outro corretor dá um sorriso sem graça.

-       Pra você.
-       Mas aposto que o porteiro ia preferir a loirona.

Todos silenciam, concordando. Ela elabora:

-       E se fosse uma gostosona? E se fosse, tipo, uma mulher assim tipo eu e uma, tipo, a mulher-melancia? Pra quem você acha que ele dava a chave?

O gerente hesita.

-       Pra gostosa?
-       Tá vendo? Não é fácil! Não é fácil ser mulher.

Ela senta-se na mesa e esconde o rosto entre as mãos. Constrangimento. Um colega se aproxima e põe a mão no seu ombro:


-       Mas não fica assim. É só um porteiro.


(dedicado a Mila Fogaça)

Thursday, November 6, 2014

NY notes (2) "Gentrification" ou: A Culpa É Das Estrelas

A palavra é... gentrification. Define o processo de valorização de áreas urbanas, no qual espaços decadentes são revitalizados, os preços sobem, os aluguéis aumentam e os antigos moradores acabam tendo que se mudar dali.

Todo este movimento numa palavrinha sem tradução para o português.

Em NY, a palavra quase sempre é usada para se referir ao processo de "shoppincenterização" de Mannhattan.  O luxuoso super-condomínio multifuncional (comercial e residencial) Hudson Yards é a mais recente face da gentrification. Quando ficar pronto, será um complexo de arranha-céus na beira do Hudson, abraçando a High Line.

Hudson Yards: Detalhe da obra na altura da rua 30 (West Chelsea)


Hudson Yards: Ilustração da obra finalizada (previsão: 2018) 



A região por onde passa a High Line (West Chelsea/Meatpacking ) era um sombrio trecho de galpões no passado recente (anos 70/80). Gradualmente, o Meatpacking foi ocupado por estudios, galerias de artes, lojas de designers, até hypar de vez e virar a Oscar Freire. Depois o Chelsea Market virou um mercadão hipster, os parques (a Highline e o Hudson Park) foram criados e os condomínios foram surgindo junto. 

Pista do Hudson Park (Chelsea)


Detalhe de jardim do Hudson Park


Agora prédios novíssimos de aço e vidro vão ocupando o espaço dos velhos galpões ao longo do rio. Para o alto e avante, junto com os andares construídos, vão os aluguéis. Claro.

Novas construções à beira do Hudson River (rua 16)


Talvez o plano de expansão imobiliária já fosse parte do acordo entre a comunidade, a prefeitura e a companhia ferroviária, para a construção da Highline, por que não?

Highline (Chelsea)


A gentrification (jura que não tem outra palavra?) existe desde que o mundo é mundo. Na Roma antiga, derrubavam-se lojinhas de comércio local para a construção de luxuosas villas (os nossos condomínios). Todo processo de revitalização de alguma área urbana, por bem intencionado que seja, ao valorizar o entorno e melhorar a qualidade de vida, aumenta a especulação imobiliária.

Interessante é notar que frequentemente os artistas são os primeiros agentes da gentrification. Foi assim no SoHo, West Chelsea, Lower East Village, Village, Williamsburg, you name it, vizinhanças deterioradas que, por terem baixos preços, galpões abandonados, viraram o destino de artistas em busca de espaço para performances, estudios e oficinas.  O público interessado em artes alternativas, música, rock, performances, etc, veio atrás, depois o comércio, depois os turistas e - bam! - quem morava nestes lugares nos anos 80 teve que ficar rico ou se mudar para bem longe.

Williamsburg - Brooklyn: o atual bairro dos hipsters já é um dos aluguéis mais caros de NY

Acontece em todos os lugares  - Praça Roosevelt, Puerto Madero, Southbank, diz aí.

A culpa deve ser mesmo das estrelas, digo, dos artistas, com esta mania de fazer do mundo um lugar mais interessante, divertido, melhor - e mais caro - de se viver. 

Sunday, November 2, 2014

NY Notes (1) O que eu vi

Até agora:

Lang Lang e a Filarmônica de NY: o programa eram dois concertos de Mozart para piano - em Sol maior e Dó menor.  Não era familiarizada com nenhum dos dois, o concerto em Sol maior foi uma gratissima surpresa, uma alegria pura. A regata de paetê branco de Lang Lang, confesso, me distraiu em alguns momentos. Entre um concerto e outro ele demorou para voltar ao palco e eu pensei: "pronto, foi trocar de roupa" e a imagem de Lang Lang  num esvoaçante vestido vermelho tomou o meu córtex de assalto. Para meu desapontamento, ele voltou com a mesma regata simplinha de paetês, quase discreta sob a casaca do smoking.

Dei umas choradinhas durante o concerto, porque não é sempre que testemunho música tão bonita e tão bem executada. Os pianíssimos eram de jogar um sapato, tamanha a ostentação de virtuosismo coletivo.




The Curious Incident of the Dog in the Night-Time: adaptação bem-sucedida do belo romance de Mark Haddon. Ainda que o protagonista (o estreante Alex Sharp) seja um pequeno gênio, a direção é a grande estrela desta montagem. A narrativa está amarradinha numa encenação espertíssima e de grande apelo visual. Não dispensaria a leitura do livro, que oferece uma oportunidade original e compassiva de enxergar o mundo através de uma mente autista.



Hedwig and the Angry Inch: escrevi sobre aqui.



Found: escrevi sobre aqui. 



Side Show: Chato. Desculpa. A montagem é linda, o elenco é muito bom, o cenário, os figurinos, a luz, tudo é lindo. Mas a peça é piegas e perde várias oportunidades de ir mais fundo por se levar a sério demais. O que poderia ser engraçado + triste é só uma longa e aborrecida sequência de baladas auto-piedosas sobre ser diferente, excêntrico e bla bla bla (nenhuma novidade aí). 

Devo dizer que fui assistir super de coração aberto e que, sim, eu estava num bom dia. Mas a peça não me convenceu. No entanto, o show tem uma fanbase animada, algumas músicas eram aplaudidas já no início. E, claro, os atores cantam muito bem. Sempre torço para dar certo, no fim das contas.



Death of Klinghofer: Puxadíssimo. Ainda não sei o que pensar; é o tipo de obra que gera sentimentos e pensamentos conflitantes. Uma ópera sobre terrorismo? E a música é linda. Isto não piora as coisas? Dar voz para terroristas não seria temerário? E, no entanto, fica claro que não há justificativa possível, nem fundo, nem fim, para a violência.

O início da ópera é especialmente perturbador, com um coro de palestinos e judeus em dois belíssimos momentos musicais que abrem e encerram o primeiro ato. Os sentimentos são confusos. Estariam os autores tornando bela a violência, racionalizando um ato estúpido? No final, o choque e a vontade de chorar predominam. A obra abre caminho para algum diálogo? Ou apenas abre feridas? Não sei, não sei. Saí do teatro precisando de um drinque forte.




A produção, claro, é deslumbrante. O elenco é forte, honesto, com vozes lindas e uma direção brilhante.  Paulo Szot é aquela força da natureza, sempre intenso e verdadeiro. E Michaela Martens é a voz para encerrar qualquer discussão.

Tuesday, August 26, 2014

NO BATIDÃO DOS TEMPOS


Eu vejo algo interessante, ainda que não exatamente bom.

Os anos 60 marcaram um rompimento cultural extremo. No Brasil, a televisão impulsionou a cultura da juventude, a música jovem, os festivais e os programas de auditório. No período de uma década, a Jovem Guarda e a MPB tomaram conta da rádio e da televisão brasileiras, numa polarização entre "alienados" e "intelectualizados" - ambos consumistas, é claro. Se a bossa-nova não ganhasse novo fôlego e notoriedade nos Estados Unidos,  talvez até ela seria excluída da pauta, pois já era considerada "careta" nos anos 60.

O samba-canção, expoente máximo da música popular brasileira "classe média" nos anos 40, resistiu como pôde até o surgimento da tevê, quando seus principais artistas não migraram para o novo formato e ficaram relegados a um espaço cada vez menor e menos nobre na rádio.

Chamado popularmente de "bolero", "fossa", "dor-de-cotovelo", o samba-canção foi jogado numa vala comum para onde foi varrido tudo o que era obsoleto e cafona, o que "já era".  Virou uma representação de uma cultura velha, com a qual as novas gerações não se identificavam.  Bom, é até compreensível: os formadores de opinião - quem define o que é moderno, cool - são pessoas, de carne e osso, olhos e ouvidos. São artistas, jornalistas, estudantes, editores de cultura, programadores de rádio, TV, teatro, festivais, etc, cuja opinião é baseada em gosto, experiência, influência, curiosidade e, obvio, empatia e antipatia.

Após 20 anos de reinado absoluto nas rádios, era natural que se desejasse um frescor na música e no discurso. E assim, o samba-canção foi para o lixo.

Então, o que eu prevejo, ou o que estou vendo acontecer - é o mais acurado - é que é a vez da MPB ir para o lixo. E é óbvio que eu não gosto da ideia, pois eu adoro MPB. Mas ela já está no seu caminho para a vala dos indesejados, classificada de "velha", "cabeção", "chata", "elitizada". Às vezes, este julgamento surge velado, às vezes é ostensivo.  Mas é fato que os formadores de opinião, se gostam de MPB, gostam escondido, quase pedindo desculpa pelo tradicionalismo.

Há 20 anos, vimos explodir gêneros ultrapopulares que conquistaram espaço na mídia - merecidamente, pois dialogam com um público enorme e dão voz a personagens antes ignorados pela nossa cultura. Com a tal emergência das classes C e D, ou seja, o surgimento de milhares de novos consumidores, os veículos de mídia e os produtores de conteúdo cultural (gravadoras, TVs, radios) ficaram loucões para atrair este novo público. E o espaço para os gêneros e artistas ultrapopulares na mídia cresceu até bater na redundância: agora é só isto.

Além disto, e para complicar a vida da cultura brasileira em geral, a nossa educação foi massacrada paulatinamente nas ultimas décadas. O que favorece a preferência por letras primárias, refrões onomatopaicos e a ausência de melodia e harmonia.

Não é que estivesse bom. Os anos 80 foram muito ruins para a MPB e os gêneros que começaram a despontar naquela década - o axé, o sertanejo, o pop e o rock - tinham realmente muito mais força e urgência.  Ao passo que a sombra de Chico Buarque projetava-se ameaçadoramente sobre novos compositores e ninguém se arriscava a uma ideia nova.

Até hoje, os poucos interessados em MPB se perguntam: "quando virá um novo Chico?" Eu não sei, talvez nunca. Talvez seja interessante que a MPB desapareça (e agora eu me abaixo para desviar da pedrada). Talvez passe um tempo, um bom tempo, até que aponte uma nova Canção Brasileira, em sua força e relevância. Talvez ela seja a música da resistência, daqueles que insistem em fazer música e letra, estes quixotes presunçosos, loucos por significado. Talvez ela nos reúna em torno de uma nova atitude, um novo discurso, que não a lamentação pelo mundo que conhecíamos acabando diante dos nossos olhos.


Na pior das hipóteses, os teimosos, como eu, ficarão entrincheirados em seus nichos. Ouvindo gravações antigas em descolados toca-discos (agora é turntable) e redescobrindo, por exemplo, a força de um samba-canção.

Friday, May 30, 2014

Assembleia


- Então está decidido que o jogo inaugural da Copa será dia 12 de junho, em São Paulo.

- Mas isto é um absurdo, logo no Dia dos Namorados? Vai ser um transtorno, o comércio já é movimentado demais neste dia, o trânsito fica impossível, os restaurantes lotados...

- Então está decidido que vai ser feriado em São Paulo no dia 12.

- Mas isto é um absurdo. Logo no Dia dos Namorados vocês querem que a gente faça feriado e deixe de ganhar dinheiro? É um dos dias de maior movimento no comércio, os restaurantes lotam, a gente conta com este dia!

- Então está decidido que vai ser feriado em São Paulo no dia 12, menos para o comércio.


- Agora vocês estão de sacanagem. Quer dizer que a gente vai trabalhar no feriado?